Fim da Recessão
(economia mundial dá claros sinais de robustez e expansão? , 2010-03-10)
Os presidentes de bancos centrais reunidos em Basiléia declararam que a . Isso se deve muito à contribuição de países emergentes, característica que parece permanente e que já foi comentada no último Fórum Econômico Mundial de Davos em janeiro.
A política de intervenção adotada no final de 2008 e consolidada em 2009 pela maioria dos países foi um sucesso retumbante. O resultado desta intervenção foi uma recessão mais breve que a maioria dos analistas antecipou há um ano. Para quase todas as economias, a previsão de crescimento em 2010 é maior que a um ano ou mesmo seis meses atrás. A economia mundial sobreviveu ao ataque cardíaco do sistema financeiro que certamente não foi uma marolinha em lugar nenhum.
Isso se deveu a estímulos fiscais e monetários sem precedentes em tempos de paz. Essas ações eram essenciais e tiveram sucesso. Elas foram inevitáveis, em particular nos lugares aonde o estouro da bolha de crédito foi maior: Estados Unidos, Reino Unido e Espanha. A China, também, armou um programa maciço de estímulo como notaram autoridades de Banco do Povo (Central) chinês.
A grande questão para a economia global neste momento é saber como e quando retirar os estímulos fiscal e monetário, e determinar qual retirada ocorrerá primeiro. Apenas repetir “evitamos a depressão” é necessário, porém insuficiente; não dá votos.
A retomada econômica da Europa, dos Estados Unidos e dos emergentes pode ser descrita pelas curvas “LUV”, respectivamente. O que é necessário fazer depende do estado das várias economias, com a necessidade de se manter estímulos mais em países europeus e menos nos Estados Unidos e em emergentes, como frisou o diretor geral do Fundo Monetário Internacional, o francês Dominique Strauss-Kahn. Se demorar demais para retirar os estímulos, haverá desperdício de recursos com excesso de dívida e déficits públicos. Se retirar cedo demais, permanece o risco de abalo de confiança e de recessão dupla (“Double dip”). Esta segunda alternativa deve ser evitada a todo custo.
Não há evidência de irrupção de demanda do setor privado em países adiantados. Enquanto esta situação permanecer inalterada, seria arriscado retirar os estímulos prematuramente. É necessário, portanto, fazer planos de médio prazo para consolidação fiscal de acordo com a situação econômica local. Enquanto isso, a política monetária deve dar apoio, ou seja, manter os juros baixos por mais algum tempo, mesmo porque não há sinais de inflação.
No longo prazo, permanecem os desafios da reforma do setor financeiro e do reequilíbrio da demanda na economia global. Nenhum desses assuntos foi seriamente enfrentado em Davos. O Presidente Barack Obama anunciou a adoção da “Regra Volcker” – a imposição de limites mais rígidos a bancos – que, apesar do choque inicial, foi interpretada como uma tentativa de dar ordem ao mercado. O Programa Mútuo de Avaliação adotado pelo G-20 em Pittsburgh em setembro último, ainda precisa ser ratificado. Muitos países ainda dependem de crescimento gerado pelas exportações para equilibrar suas contas e retirar os estímulos. Isso é uma receita de estagnação. Não se pode esperar que sempre haverá superávits inesgotáveis de conta corrente.
Pode-se esperar por uma economia global mais aberta? Representantes de países emergentes são favoráveis. Aliás, a Organização Mundial de Comercio disse que o comercio mundial voltou a crescer moderadamente. Mas, por outro lado, Nicolas Sarkozy, presidente da França, já declarou que a crise financeira prejudicara a legitimidade da economia de mercado global aos olhos de muitos em países de economia avançada. Sarkozy foi tão enfático que parecia um manifestante antiglobalização. Por sua vez, Larry Summers, assessor econômico de Obama, enfatizou que “o que se vê nos Estados Unidos e talvez em outros países, é uma retomada estatística e uma recessão humana”. Segundo esta visão, a combinação de alto desemprego com “políticas mercantilistas” em partes do mundo faz com que seja difícil defender política e intelectualmente medidas de comercio liberais. A menos que a retomada econômica ultrapasse as expectativas, alto desemprego persistirá em países avançados, com todos os riscos que isso pode trazer.
O desafio, portanto, é político. Os líderes mundiais demonstraram grande habilidade no enfrentamento da crise. A disposição de cooperar no ano passado, evidente com a ascensão do G-20, foi admirável, mas frustrante até agora. Esta disposição torna-se mais difícil quando se volta à política de sempre, especialmente visto o nível de desemprego e as grandes divisões dentro da classe política dos Estados Unidos, ainda o único país hegemônico do mundo. A União Européia parece totalmente inoperante. Cadê seu novo presidente? Cadê seu novo Chanceler, ou, no caso, sua nova Chanceler? Leva um euro quem se lembrar dos nomes deles. A incapacidade da zona euro de enfrentar o fato que a periferia não consegue escapar de sua armadilha fiscal sem forte expansão da demanda do núcleo comprova a inércia européia. A China, também, está preocupada com seu próprio umbigo. Mas, que país não está preocupado acima de tudo com sua situação doméstica? A autoridade do Banco do Povo prometeu reequilibrar; agora, se fala em acabar com o atrelamento de sua moeda, reminbi, ao dólar. Será? Quando? Como? O que vai acontecer quando as medidas de estímulo forem retiradas? Quando isso ocorrer, seu efeito será grande em outros países que dependem da exportação para a China.
Há um conflito entre a economia globalizada e a política paroquial. Depois que o perigo da depressão ter sido descartado, o problema atual é outro: a convalescência e a volta à normalidade. Mas à medida que o equilíbrio de poder continua mudando, este desafio deve ser enfrentado. Se não o for, há o sério risco de a economia e a cooperação globais serem seriamente prejudicadas. Uma boa estratégia para tanto seria a retomada da luta contra o protecionismo e do comercio global. Apesar dos temores em vários países, o comercio gera riqueza, criação de empregos e prosperidade.
O último relatório conjunto da Organização Mundial de Comercio (OMC), da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Conferência das Nações Unidas sobre Comercio e Desenvolvimento (UNCTAD), sobre as medidas de comercio e de investimento do G-20, declarou que as altas taxas de desemprego e as incertezas sobre o crescimento global apontam para a necessidade de os governos de países do G-20 “permanecerem vigilantes na oposição ao protecionismo. As três agências incentivaram os líderes do G-20 a reafirmar “seu compromisso com a abertura de comércios e de tornar concretos seus muitos pedidos para que se chegue rapidamente à conclusão do processo de Doha. No momento em que governos estão não podem oferecer mais estímulos fiscais e monetários, o livre comercio pode dar à economia global uma alavancagem e oferecer verdadeiras oportunidades de criação de empregos.
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