Os BRICs suscitam muito ceticismo
(Uma aliança de China e Índia pode ser um verdadeiro pesadelo para os EUA , 2010-04-07)
Dependendo do ponto de vista, os BRIC suscitam admiração ou ceticismo. Além de um “antiamericanismo” primário, esses países pouco têm em comum a não ser um crescimento econômico robusto embora desigual. A Rússia, além de vastas reservas de gás e petróleo, ainda é incapaz de produzir qualquer coisa a que não seja armamentos. Apenas recentemente o Brasil começou a ter um crescimento mais expressivo, porém não na mesma proporção ao da Índia e, sobretudo ao da China. Aliás, a bolha chinesa vai estourar quando? China, Índia e Rússia parecem ter mais posições antagônicas que interesses comuns e áreas de cooperação. Com freqüência, estes países são levados para direções diferentes, senão opostas. Como seria possível uma união desses países que têm muitas diferenças? É verdade que o Brasil está numa posição privilegiada por não ter qualquer desacordo fundamental ou séria desavença com os demais integrantes do grupo.
Apesar disso, um artigo no Financial Times no mês passado sugere que as coisas possam estar evoluindo para o relacionamento bilateral entre Índia e China. Uma aproximação mais forte depende da correção do esquisito relacionamento comercial vigente entre os dois lados. Nos últimos dez anos, a China tornou-se, ou o principal parceiro comercial da Índia, ou o segundo mais importante atrás dos Estados Unidos, dependendo do cálculo. O comercio bilateral entre as duas economias que crescem mais rápido no mundo foi de US$260 milhões em 1990 para US$52 bilhões em 2008.
Pelas estimativas chinesas, o comercio entre os dois países deve alcançar US$60 bilhões neste ano apesar dos efeitos da crise financeira que se abateu sobre a economia global a partir do estouro da bolha em setembro 2008. O fluxo de comercio, porém, permanece bastante desequilibrado. O déficit da Índia foi de US$16 bilhões no ano passado num volume de comercio de US$43 bilhões.
Longe de festejar o crescente comercio, a Índia mantém um profundo ressentimento sobre o crescente déficit favorável à China. Setenta por cento das exportações indianas para a China são de matérias primas que voltam à Índia com um mais alto valor agregado, o que prejudica médias e grandes empresas do país, uma situação semelhante à do Brasil, aliás.
Este desequilíbrio comercial é hoje o principal assunto da agenda de Nova Deli com Beijim. Ministros pedem medidas corretivas e levaram suas queixas ao Primeiro Ministro Wen Jiabao. O Chanceler indiano, S. M. Krishna visitará Beijim na próxima semana, e a Presidente da Índia, Pratibha Patil, em sua visita de Estado no ano passado, repetiram essas posições do governo da indiano.
Entre as medidas que Nova Deli quer que Beijim adote está o fim das restrições de exportações indianas de tecnologia de informação, de filmes de Bollywood e de alimentos frescos. A Índia também quer mais oportunidades de investimento para suas empresas em setores como farmacêuticos e TI.
Por seu lado, a Índia resiste à crescente dependência em telecomunicações e equipamentos chineses, que são essenciais para a modernização de sua obsoleta infra-estrutura. Nova Deli chegou ao ponto de impor limites a empresas chinesas que trazem empregados além da fronteira do Himalaia para a construção de oleodutos e de usinas geradoras de energia. Há o constante temor da invasão de produtos baratos importados da China graças à moeda desvalorizada; assim, a Índia impôs restrições a celulares, brinquedos e chocolates “genéricos”. O Brasil poderia fazer o mesmo no caso de brinquedos.
A tensão entre os dois países estende-se também a territórios disputados. A Índia preocupa-se com as reivindicações chinesas sobre Arunachal Prandesh, o estado indiano que faz fronteira com o Butão e o Tibete; com a interferência de Beijim na disputa da Caxemira; com a presença da marinha da China no Oceano Índico e no Mar da Arábia; e com a aliança da China com o Paquistão com fornecimento de equipamento militar.
Por seu lado, a China queixa-se de que suas tentativas de abrir unidades do Instituto Confúcio em algumas universidades indianas para a promoção do idioma e da cultura chinesa foram infrutíferas. A empresa de telecomunicação chinesa, Huawei, alega que fica cada vez mais difícil para provedores estrangeiros de tecnologia fazerem negócios na Índia.
Há indicações que Beijim não esteja totalmente surda às queixas indianas. Freqüentemente, as preocupações indianas eram tratadas com indiferença pela China. Mas os dirigentes do Partido Comunista da China, cientes que os dois países têm quase a metade da população do planeta, parecem mais receptivos a uma nova parceria.
Hui Liangyu, vice primeiro ministro chinês, reconheceu em sua recente visita à Índia, que é necessário equilibrar o comercio entre os dois lados; disse que não é necessário a China manter um superávit com a Índia (que já tem com outros mercados). Ele lançou um programa de quatro pontos para enfrentar o problema: estímulo da demanda de consumidores chineses; incentivos de investimentos indianos na China; parceria em tecnologia agrícola; e proteção industrial e ambiental.
A Índia indicou à China sobre como ganhar mais confiança indiana e não tentar aumentar sua participação em setores mais sensíveis, como as telecomunicações, portos e outras áreas de infra-estrutura. Tão pouco Beijim deveria exportar mão de obra não qualificada. Muitos indianos apontam para a Coréia do Sul, que fez grandes avanços na economia indiana com a Samsung e a Hyundai, como exemplo de relação comercial.
Beijim e Nova Deli, no entanto, precisam conversar sobre assuntos específicos e a eliminação de obstáculos não tarifários para que a desconfiança não se alastre mais.
Ambos os países esperam crescer entre 8% e 10% ao ano nas próximas duas décadas. Eles esperam que a bem sucedida “resistência” aos Estados Unidos na conferência sobre o clima de Copenhague em dezembro 2009 seja um início de maior alinhamento em discussões multilaterais sobre o clima, comercio e arquitetura financeira internacional.
Não há consenso no establishment indiano sobre o futuro das relações bilaterais. Alguns prevêem mais inimizade com a China, mas outros como o ministro do meio ambiente Jairam Ramesh do Partido do Congresso, apostam em mais parceria com a China e que qualquer ação internacional da Índia deva ser coordenada com a China. Para ele a disputa comercial será resolvida à medida que as empresas indianas se tornarem mais eficientes e que os mercados da China fiquem mais abertos.
A voz de Ramesh não está isolada em identificar uma aliança mais profunda entre Índia e China como causa de fricção com outros países, especialmente com os Estados Unidos. Diz ele: “Se os americanos consideram a China uma dor de cabeça, eles vão achar que lidar com uma aliança de China e Índia um verdadeiro pesadelo”.
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