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Domingo, 5 de setembro de 2010
  Coluna do Cattoni
Relações Internacionais da China no Século XXI
(O jogo de poder na arena internacional continua sendo um desafio permanente , 2009-11-16)

A República Popular da China tem relações internacionais bastante complexas, que lembram em nada a época em que era vassala da ex-União Soviética. Sua atuação no mundo não pára de crescer.

A China hoje dá mais ajuda econômica à África que os Estados Unidos. Garante assim apoio político, mercados e recursos naturais. Isso ficou exemplificado com o apoio que deu ao Sudão, sobre a questão de Darfur, província em guerra civil que levou a milhões de refugiados, mas que também tem grandes reservas de petróleo que é exportado para a China. Durante muito tempo Beijim fechou os olhos para os abusos dos direitos humanos cometidos pelo governo sudanês para poder ter acesso aos recursos naturais do país. As relações de Beijim com outros países da África são também impressionantes. Produtos chineses, calçados e tecidos, são concorrentes diretos dos brasileiros em Angola.

Beijim e Nova Deli têm uma antiga rivalidade e uma disputa atual para se estabelecer como a principal potência asiática. As disputas territoriais entre Índia e China, que tiveram origem na época em que a Índia ainda era colônia britânica e foram constantes ao longo do século 20, têm atravessado períodos de tensão e de distensão. Recentemente, ações e declarações de autoridades de ambos os países indicam o reaquecimento da disputa. A disputa deixou de ter a partir de 1950, por parte da China, um caráter de mera manifestação retórica em defesa de princípios históricos, quando este país invadiu e anexou o Tibete, levando sua influência política e militar diretamente até a área contestada. O clima começou a agastar-se em 1959 após a Índia conceder asilo ao Dalai Lama, que se evadira do Tibete quando a China esmagou uma rebelião popular contra a ocupação chinesa. Incidentes entre patrulhas na fronteira começaram a ocorrer e uma guerra entre os dois países teve início em 1962, na qual a China obteve mais sucesso que a Índia.

Outro vetor novo para Beijim é a Organização de Cooperação de Xangai, cujo ato de criação foi assinado por Hu Jintao e Vladimir Putin, quando este ainda era presidente da Rússia. Esta organização agrega, além da China, a Rússia, Cazaquistão, Quirguízia, Tadjiquistão e Uzbequistão. Quatro outros países têm o status de observador: Irã, Mongólia, Índia e Paquistão. A OCX se vê como uma organização homóloga à OTAN para a Ásia Central e atua para diminuir a influência Ocidental, em particular, a dos Estados Unidos, nesta região rica em gás e petróleo, onde se negocia a construção de vários dutos de gás e petróleo.

Os chefes de governo de China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tadjiquistão reuniram-se posteriormente no Palácio do Povo, em pleno coração da capital chinesa, em companhia de seus colegas dos países observadores para aprofundar as relações políticas, econômicas e comerciais do bloco. Os participantes assinaram um documento sobre as estratégias a serem adotadas contra a crise decorrente do estouro da bolha e para preparar o pós-crise. Não foram revelados, no entanto, os detalhes deste acordo.

Para romper o percebido ou real “círculo estratégico americano”, Beijim vem cultivando os membros da ASEAN, a Associação de Nações do Sudeste da Ásia e os integrando a um sistema de “neotributo” em que eles possam desenvolver laços individuais com a China mais profundos e extensos que entre eles. Um diplomata tailandês declarou que “os países asiáticos prostram-se diante da China devido à premissa que a China não os abandonará em tempos de necessidade, como os EUA o fizeram durante a crise financeira asiática”.

A ASEAN é sinônima da nova periferia da China. Singapura, Malásia e Brunei são seus parceiros ricos; Tailândia, Indonésia e Vietnã, seus ativos econômicos e estratégicos; Myanmar, Camboja, Laos e Filipinas, seus clientes terceiro-mundistas. Com a maioria deles, a China concede amplo acesso de mercado e mantém déficits comerciais constantes – que trouxeram lucros imensos a empresas dos países da ASEAN. Em contrapartida, a China recebe recursos naturais, assina acordos de defesa, e promessas diplomáticas de apoio.

Como europeus no Magrebe, jovens profissionais liberais chineses compram propriedades para suas aposentadorias de Penang na Malásia a Bali na Indonésia, aumentando assim a esfera chinesa de co-prosperidade para o século 21, à semelhança da Grande Esfera de Co-Prosperidade da Ásia Oriental proposta pelo Japão após o ataque a Pearl Harbor para justificar as ações nipônicas na Ásia. Pela proposta, a Ásia, com o Japão à frente, se uniriam para desalojar qualquer ação Ocidental – política, econômica e cultural – de suas terras. Mas, isso foi ontem; hoje substitui-se Japão por China.

De certa forma, a política externa chinesa é pautada pela competição com os Estados Unidos. As relações bilaterais entre eles não são menos complexas. O principal fórum multilateral de que ambos Beijim e Washington participam é a Ásia-Pacific Economic Cooperation (APEC). O principal objetivo da APEC é reduzir taxas e barreiras alfandegárias da região Pacífico-asiática, promovendo assim o desenvolvimento da economia da região. A mais recente reunião da APEC ocorreu em Singapura, com a presença dos Presidentes da China e dos Estados Unidos, respectivamente Hu Jintao e Barack Obama. Esta organização tem grande peso nas relações internacionais com a participação das principais potências globais, EUA, RPC, Rússia e Índia.

As relações bilaterais entre China e Estados Unidos não são menos complexas. Com o assunto de Taiwan ao centro, as relações bilaterais têm aspectos militares-estratégicos, econômicos, comerciais e de política de direitos humanos; é uma relação que requer habilidade e cautela de ambas as partes. Washington variou sua atitude entre momentos de envolvimento (engagement) e outros de apaziguamento (appeasement). A administração Clinton foi uma das que menos pressionou Beijim. Foi nesse momento que a China apoderou-se de ilhas do Mar do Sul da China, lançou mísseis em direção de Taiwan, aumentou gastos militares, tentou interferir nas eleições americanas, mandou espiões às instituições de pesquisas nucleares, e roubou tecnologia americana. Portanto, appeasement não trouxe os resultados esperados.

Mas, confronto também não traz e deve-se evitar que algo que início à Primeira Guerra Mundial venha a ocorrer: a perda de controle dos acontecimentos. É necessário, no entanto, o Ocidente conter (containment) a ambição hegemônica da China antes que esta fique poderosa demais e que os Estados Unidos perca parte de seu poder relativo, o que parece inevitável. Manter o diálogo constante, sem arrogância e sem subserviência, é um primeiro passo. As Forças Armadas americanas precisam aprimorar o diálogo com a China para evitar “equívocos e erros de cálculo”, dada a expansão militar que Beijim promove e que alimenta incertezas na região. O secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, disse que o governo americano faria “o possível para expandir o relacionamento de nossas Forças Armadas com as Forças Armadas da China”. Mas será que a China também o deseja?

As relações Estados Unidos-China serão centrais no século 21. Tudo indica que pode haver uma nova bipolaridade apesar da emergência de novos atores e da permanência de antigos. Hoje, bipolaridade tornou-se G-2. O anúncio da postergação de um acordo em Copenhague prenuncia isso. A União Européia é lenta na tomada de decisões embora os avanços na ratificação do Tratado de Lisboa serem promissores. Os BRIC estão longe de ser um grupo coeso; as divergências entre China e Índia e entre China e Rússia são profundas, extensas e antigas, apesar de certos interesses conjunturais darem a aparência de harmonia. O Brasil está distante física e culturalmente desses problemas e por isso não é muito afetado – menos quando a China veta a inclusão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, ou quando a Índia veta um Acordo em Doha.

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