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Domingo, 5 de setembro de 2010
  Coluna do Cattoni
Falta de Ousadia da União Européia
(A escolha de novos representantes da UE não causou grande impacto no resto do mundo , 2009-11-23)

“Quando quero falar com um líder europeu, para quem devo ligar?”, perguntava Henry Kissinger, ex-assessor de segurança nacional e ex-Secretário de Estado de Richard Nixon, sobre a falta de uma única pessoa no comando da Europa. Sendo assim, os Estados Unidos sempre desenvolveram relações bilaterais com Londres, Berlim e Paris, quando era necessário resolver políticas conjuntas sobre vários assuntos de interesse comum.

Por isso, Valéry Giscard d’Estaing, ex-presidente francês, foi incumbido de elaborar um plano para dar à Europa instituições que, com o tempo, deveriam evoluir para a adoção de alguns aspectos federativos. Entre 2002 e 2003, Giscard foi presidente da Convenção para o Futuro da Europa, que redigiu um projeto de Constituição Européia aprovado em 2004 pelos chefes de Estado e de Governo dos membros da União Européia. O resultado posterior foi o Tratado de Lisboa, assinado e ratificado por todos os 27 países membros. A missão de Giscard fora de atualizar a UE para o século XXI. Na concepção do ex-presidente francês, a Europa precisava de nova liderança forte nas pessoas de um presidente e de um chanceler para que a Europa alcançasse sua ambição de ser um dos principais atores do novo século.

Na semana passada, finalmente foram nomeados algumas importantes figuras da UE que representariam doravante o poder executivo da União – pessoas que não seriam obscuros burocratas da Comissão Européia, mas figuras eleitas com algum respaldo político. Assim foram indicados um presidente e um ministro das relações exteriores para a Europa. Finalmente existiria alguém para Henry Kissinger ligar em caso de necessidade de coordenação política entre Europa e Estados Unidos!

Doce ilusão. As escolhas dos indicados decepcionaram gregos e troianos. Falou-se em Pascal Lamy, Christine Lagarde (ministra da economia e das finanças da França), no Lord Christopher Patten, político Partido Conservador e último Governador Geral de Hong Kong, e em Tony Blair. Todos esses seriam legítimos presidentes europeus. Chris Patten é muito respeitado e já serviu na Comissão Européia e é atualmente Reitor da Universidade de Oxford. Blair é o tipo de autoridade que sabe dar uma sólida visão política ao que faz; é extremamente articulado com suas palavras e atos.

Os líderes europeus, contudo, optaram por se afastar da visão giscardiana da Europa. Em vez de Lamy, Lagarde, Patten ou Blair, eles escolheram Herman Van Rompuy para presidente e Lady Ashton para chefe da diplomacia européia. Quem são eles? Rompuy é primeiro ministro da Bélgica e Ashton comissária européia para o comercio há pouco mais de um ano. Rompuy tem fama de bom articulador de bastidores no governo belga – tarefa árdua num país dividido por clivagens lingüísticas. Ashton, apesar de pessoalmente muito simpática, conhece pouco de política externa.

Sem dúvida os atuais líderes europeus, em particular, Gordon Brown, Nicolas Sarkozy e Ângela Merkel, escolheram políticos que não podem ofuscá-los como principal representante europeu no cenário internacional.

A reação de Michel Rocard, ex-primeiro ministro francês, por exemplo, foi que Rompuy é um “novato e que, mesmo se for bom, terá pouco impacto”. Daniel Cohn-Bendit, político verde e ex-líder estudantil de Maio 1968, afirmou que a “Europa chegou ao fundo do posso” com essas escolhas. O Professor Simon Hix da London School of Economics disse que a nova equipe da UE tornava a Europa parecida com uma “Suíça tamanho gigante”. Todos lamentaram a perda da visão que Giscard d’Estaing inspirou. Além do mais, o fato de eles não serem eleitos não confere a eles a devida legitimidade que o cargo requer.

Parte da explicação por essas escolhas está no fato que os líderes alemães atuais não desejam nem precisam ocultar o fato que não acham mais necessário passar por Bruxelas para defender os interesses nacionais da Alemanha, contrariamente ao passado quando Bonn ainda agia com certa insegurança devido ao passado nazista.

O entusiasmo francês por uma Europa forte foi bastante afetado pelo “Não” no referendo francês de 2005 sobre a expansão da União e pela percebida posição “anglo-saxônica” de Bruxelas, a “bête noire” da França. Sarkozy e Merkel estão tentando recriar a aliança franco-alemã e não querem qualquer líder forte em Bruxelas desafiando sua autoridade.

Ademais, não há muito entusiasma nas capitais européias de se colocar líderes em posições potencialmente poderosas que acabaram de ser criadas em Bruxelas sem consulta popular.

Países tradicionalmente federalistas como a Alemanha deslocou-se para o campo do eurocéticos dos Tories britânicos que defendem que o presidente europeu não seja alguém carismático, como o Trabalhista Tony Blair, por exemplo.

Para os Estados Unidos a escolha européia foi uma grande decepção ao ver que o Tratado de Lisboa não resultou, como desejado por Washington, na “aceleração das capacidades e das ambições européias”. Na Ásia a escolha de Rompuy foi tratada com indiferença diplomática e com silêncio bem educado.

A escolha foi produto de compromissos entre a direita e a esquerda, entre o norte e o sul do continente e entre homem e mulher. Mas, se os europeus forem se limitar a esses padrões, as decisões da União Européia serão sempre decepcionantes e inevitavelmente gerarão frustrações. As decisões serão tomadas pelo menor denominador comum garantindo assim que líderes nacionais não sejam desafiados por líderes comunitários. É tribalismo político, geopolítica de pigmeus e miopia severa por parte da Europa.

Neste momento de definição em que China e Estados Unidos estão recriando uma bipolaridade de fato, a decisão européia de não envolvimento, e até de retração, em assuntos globais chama a atenção. É como se a Europa estivesse propositalmente delegando a outros a definição dos rumos das relações internacionais neste início de século.

Ao que tudo indica ainda não é desta vez que os sucessores de Henry Kissinger disporão da possibilidade de botar a mão no telefone e chamar os tomadores de decisão da Europa.

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