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Domingo, 5 de setembro de 2010
  Coluna do Cattoni
Dubai – O Que deu Errado?
(Mais uma bolha estourando no âmbito da crise internacional , 2009-12-07)

Há duas semanas, Dubai deu todas as garantias à City de Londres que tudo estava indo a mil maravilhas. A Cidade-Estado tinha passado incólume pelo furacão financeiro global, e podia até se beneficiar com grupos financeiros que procuram abrigo contra impostos e mais regulação em centros mais estabelecidos como Nova York e Londres. O mais incrível foi que tudo foi muito convincente.

Mas isso foi há duas semanas atrás, antes de o Emirado reconhecer que estava com dificuldades e pedir aos credores uma extensão de seis meses para saldar sua dívida de US$80 bilhões, dos quais quase dois terços eram do grupo privado Dubai World, ou DB World, responsável pela maior parte das obras que fizeram o mundo arregalar os olhos de admiração. Como estamos vivendo sob o domínio da globalização, houve preocupação que o pânico se alastrasse pelo mundo e que a difícil retomada econômica fosse prejudicada, ou pelo menos atrasada.

Naquela ocasião, também não se sabia que o muito respeitado Omar bin Sulaiman, “Governador” do Centro Financeiro Internacional de Dubai (DIFC, na sigla em inglês) seria sumariamente exonerado sem qualquer explicação poucos dias depois de ser mostrado na televisão com Gordon Brown. Mas este procedimento era apenas mais um sinal dos males que assolam o Emirado – uma desconexão entre a bolha de Dubai e o mundo real.

A Cidade-Estado, com ilhas artificiais em forma de palmeira e pistas de esqui de neve dentro de prédios, não podia mais pagar suas dívidas que se acumularam de forma assustadora. A comunidade financeira, aliás, com escritórios dentro do próprio DIFC, alardeava que tinha sido enganada sobre as intenções de Dubai para administrar a dívida.

Dubai sempre se promoveu como um modelo de cidade global, numa região atrasada do mundo que não soube superar seus conflitos nem realizar as aspirações de seus jovens. Seu governante, o Xeique Mohammed bis Rashid al-Maktoum, dizia ter como missão o renascimento da cultura árabe. Dubai, contudo, administrou suas finanças de forma arrogante, conducente de um Estado autocrático que se recusava a encarar a realidade, e era governado por uma família indiferente às expectativas e ao modo de operar dos mercados internacionais.

Apesar do estouro da bolha que abalou Dubai ocorreu na semana em que outros já estão em recuperação. A razão é que, pelo menos em parte, o Emirado não quis admitir estar face a sérios problemas.

Quando a bolha do Lehman Brothers estourou em setembro de 2008, Dubai propagou a idéia que era grande demais para ser afetado pela turbulência global. Os xeiques demonstraram assim que não apenas tinham excesso de confiança, mas que não queriam encarar a realidade devido à sua imensa riqueza proveniente da receita com o petróleo, que dava a impressão que qualquer dívida seria paga sem qualquer dificuldade. Não é bem assim, sabe-se agora.

Para ilustrar esta falta de contato com a realidade, logo após o colapso do Lehman Brothers, a firma Nakheel, parte do conglomerado da Dubai World, anunciou planos para construir a maior torre do mundo em Dubai, que já tem o maior prédio da região.

Parte do modelo de seu desenvolvimento dependia da afirmação que Dubai sabe aproveitar-se do infortúnio dos outros, sendo um ímã para capital e pessoas que fogem dos mercados voláteis do mundo. Isso seria mais que um modelo, seria o verdadeiro milagre de Dubai. Não deve ter sido fácil fazer o Xeique Mohammed bis Rashid al-Maktoum abrir os olhos e acordar para a realidade das dívidas tão grandes.

Em fevereiro, Dubai lançou um bônus de US$10 bilhões que foi garantido por Abu Dhabi e pelo Banco Central dos Emirados. Tudo indica que tal lançamento tenha demorado tanto devido à relutância do Xeique Mohammed de ser socorrido pelo seu rico (mais) vizinho, temendo que isso afetasse sua imagem e limitasse sua independência de ação. Tão pouco estava ele disposto a se desfazer a preço reduzido de seus principais ativos, que são muitos, como, por exemplo, o Cirque du Soleil e um cassino em Las Vegas. Não é impossível que tal resistência esteja por trás dos problemas da semana passada.

As autoridades de Dubai resistiram consistentemente à noção que o bônus de US$10 bilhões fosse um “socorro”. Os mercados ficaram mais calmos depois do socorro que oficialmente não foi socorro, mas não demorou muito para um alto grau de confusão voltar.

Em maio, uma das pessoas encarregadas de assessorar o Emirado na administração da crise – e uma das poucas que reconhecia a que ponto ela era ampla e profunda – perdeu parte de suas responsabilidades. Nasser al-Sheikh, diretor-geral do departamento de finanças, foi vítima de uma luta pelo poder que se intensificou neste ano. Uma das principais figuras da corte do Xeique Mohammed tentou consolidar seu próprio poder em detrimento de assessores que atuavam durante os anos de boom. Muitos assessores competentes foram exonerados, mas Sultan bin Sulayem, apesar de perder grande parte de seu poder, permaneceu na presidência da Dubai World.

Tudo indica que os planos de Dubai para reestruturar seus negócios sejam sólidos. Já começaram conversas para reestruturar a dívida. Mas visto que detalhes dessa estratégia são tratados como segredos de Estado e que o processo decisório permanece embaralhado em intriga de palácio, a Cidade-Estado e o resto do mundo ainda dependem de rumores e de especulação, mais que de fatos.

Mas nada disso deveria ser surpresa. Há alguns anos, Dubai se apresentava a investidores como o Emirado que iria construir “uma cidade de bolha”, com restaurantes e museus suspensos em balões de hélio delimitados por cercas transparentes. Esta fantasia nunca se tornou realidade, mas, quem sabe, talvez fosse exatamente lá que alguns de seus dirigentes vivessem.

Não deixa de causar surpresa que a riqueza do petróleo não tenha evitado que tudo isso acontecesse. Pelo contrário, pode ter sido uma das causas do infortúnio de Dubai.

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