A Década que o Mundo Curvou-se para o Leste
(Os desafios do mundo ocidental frente ao avanço das economias asíáticas , 2010-01-05)
Minha primeira coluna da nova década é um comentário sobre um excelente artigo para o Financial Times do professor de História da Universidade Harvard Niall Ferguson. Com a ascendência da China, a dominação pelo Ocidente do mundo que durou desde o Renascimento e a Reforma até o presente momento quando o mundo curvou-se para o Leste. A liderança “Ocidental” do mundo durou aproximadamente de 1500 a 2000, ou seja, da descoberta do Brasil até este “se tornar velho antes de rico” (nas palavras de Delfim Neto).
Como, pergunta Ferguson, esta região da Eurásia aparentemente menos desenvolvida e certamente menos populosa pôde dominar o Mundo Muçulmano (árabe e persa), a Índia, a China, o Japão e a Coreia, todos mais sofisticados e populosos?
Se é possível oferecer uma explicação convincente para a ascendência Ocidental no passado, seria crível fazer também um prognóstico de seu futuro? Em outras palavras, a civilização europeia que, graças ao Iluminismo e à revolução industrial atravessou o Atlântico e alcançou os antípodas, teria chegado a seu apogeu? Evidentemente, os Estados Unidos e Nova York em particular, representavam o ápice desta civilização Ocidental na virada do milênio há dez anos. A globalização e a vasta rede econômica de que dela resultou foram um projeto de concepção e de propriedade americanas.
Mas a recessão provocada pelo estouro da bolha das dot.com fez com que os Republicanos voltassem à Casa Branca e que a promessa Democrata de equilibrar as contas públicas fosse esquecida. Aconteceu a grande calamidade da eleição de George W. Bush e a subida dos neocons ao poder. Com sua determinação ingênua e com a adoção da política de levar à força a democracia – com “mudança de regime” – a países para quem ela nunca fora um fator.
Aí então veio o 9 de setembro de 2001, que colocou Manhattan ao centro do mundo e deixou clara a centralidade de Nova York. Para desafiar os Estados Unidos, e de fato, o próprio Mundo Ocidental, não havia alvo mais simbólico. Simbólico também foi a adoção do “Eixo do Mal”, a Guerra do Iraque, do Afeganistão, do Líbano e da Palestina, bem como as ameaças explícitas ao Irã e à Coreia do Norte, e as implícitas à China. As palavras de Donald Rumsfeld, ex-Secretário de Defesa no primeiro governo de “W.”, foram sintomáticas dessa arrogância ingênua: “Os iraquianos vão receber as tropas americanas com flores”.
A ilusão da “hiperpotência” americana chegou ao fim com dois eventos. Nos campos de batalha do Iraque e do Afeganistão ficaram evidentes os limites do poderio militar dos neocons americanos que acreditavam e defendiam uma onda democrática que varreria o Grande Oriente Médio. A segunda foi a escalada da crise dos subprime de 2007, a resultante crise do crédito e a quebra do Lehman Brothers de 2008 e a recessão de 2009.
Ferguson faz então uma comparação entre o Império Britânico e o Americano para explicar o provável fim da “Pax Americana”. Ele vê “três déficits fatais” no poder americano que não são aqueles tratados geralmente. Déficit de força do trabalho, “manpower”, que se traduziu por poucos soldados nos campos de batalha do Iraque e do Afeganistão; déficit de atenção, ou seja, falta de entusiasmo para ocupação de longo prazo de países conquistados; e, sobretudo, déficit financeiro sem a devida popança relativa ao investimento e falta de taxação relativa às despesas públicas. Este último déficit foi o de maior impacto porque os Estados Unidos começaram, em 2004, a ser dependentes em capital da Ásia (Japão, Coreia e, sobretudo China) para equilibrar seus déficits em conta corrente e fiscal, estes sim muito comentados. O declínio e fim do Império Americano não se deveria a terroristas nem a regimes que os patrocinam, mas à crise fiscal doméstica.
O déficit em conta corrente americano ser financiado por bancos centrais asiáticos, em particular o chinês, representou o ponto de virada da década – o tipping point que deixou claro que nada seria com antes, com uma China sovina e uma América gastadora.
Seria ingênuo pensar que a China não encontrará problemas pela frente. Ela tem um capitalismo autoritário, em geral associado ao de Singapura. Mas comparar um país de 1,3 bilhão de habitantes com um de 4,5 milhões e que no momento enfrenta uma recessão não é encorajador para Beijim. Seria irrealista acreditar que a China não terá desafios imprevistos no futuro. Mas não se pode esconder o fato que a Ásia e a China em particular, não foram tanto afetadas pela crise do estouro da bolha quanto o Ocidente.
O PIB da China cresceu dez vezes entre 1978 e 2004; o da Grã-Bretanha expandiu-se quatro vezes entre 1830 e 1900. O PIB dos Estados Unidos era oito vezes maior que o chinês no início da década de 2000; hoje ele é apenas quatro vezes maior; se Jim O’Neill, economista-chefe do Goldman Sachs e criador da sigla BRIC, estiver correto, o PIB da China alcançará o dos EUA em 2027, em menos de duas décadas! Todos esses números são realmente muito impressionantes.
Ferguson postula que seis fatores foram essenciais para a dominação pelo Ocidente do mundo: empreendedorismo capitalista, método científico, sistemas legais baseados em direito de propriedade e políticos na liberdade individual, imperialismo tradicional, sociedade de consumo, ética protestante de trabalho e acúmulo de riqueza. Ele acha que a China já replicou os dois primeiro desses traços e que talvez esteja adotando outros com modificações “confucianas”, como imperialismo, sociedade de consumo, ética de trabalho e acúmulo de riqueza. A China, contudo, parece ainda estar longe de adotar a primazia da lei e as liberdades individuais, permanecendo um regime de partido único.
Será que no caso da China a democracia pode não ser essencial para uma prosperidade duradoura? A próxima década nos dirá, e isso pode ser um dos desafios atuais da China. Ela pode não aturar, como a antiga União Soviética não aturou, as pressões de uma “Glasnost”. Ou, talvez, ela possa mostrar um inédito modelo alternativo ao da democracia.
O fato é que no caso da China foi a adoção de ideologias Ocidentais – o marxismo-leninismo – que as manteve atrasada durante tanto tempo. O fato de ter adotado idéias de economia de mercado possibilitou este incrível crescimento que permitiu a transformação de sua sociedade.
Seria precipitado achar que os Estados Unidos “já eram”. Com sua capacidade de se reinventar, sua tecnologia, seus centros de excelência de ensino e de pesquisa, sua indústria de ponta, os Estados Unidos estão em posição de mostrar como resolver os principais desafios do momento: a mudança climática e o aquecimento global. Com sua recente ênfase em desenvolvimento sustentável, quem sabe se a China não possa adotar várias idéias americanas e garantir sua prosperidade futura?
|