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Domingo, 5 de setembro de 2010
  Coluna do Cattoni
Geopolítica do Início do Século XXI
(O grande enfrentamento do futuro será mais entre Estados que entre ideologias , 2010-01-12)

A primeira década do século XXI foi marcada principalmente pelas figuras de Osama bin Laden e de George W. Bush. Com seu ataque contra as Torres Gêmeas de Nova York, o terrorista-mor desafiou o Ocidente, complacente depois do fim da União Soviética e da derrocada do comunismo. A resposta do presidente americano deixou evidente o alcance e, paradoxalmente, o limite do poder dos Estados Unidos. Poder-se-ia incluir a esta pequena lista o nome de Vladimir Putin, ex-presidente e atual primeiro ministro da Rússia. Putin, porém, apesar de permanecer no poder e de pretender voltar à presidência, não pôde evitar o declínio e a decadência da Rússia.

Mais de oito anos após a destruição proporcionada no sul da ilha de Manhattan, o Afeganistão e o Paquistão ainda representam o palco de conflitos enraizados em Estados fraturados, no extremismo violento e numa teimosa luta contra a modernidade. Osama fugiu; o sucessor de Bush, Barack Obama, enfrenta o atoleiro do Afeganistão; a guerra Osama-Obama representa a mais perigosa ameaça contra os Estados Unidos. Ademais, é grande o risco das armas nucleares paquistanesas caírem nas mãos de islamistas, bem como o da proliferação com o Irã desenvolvendo seu próprio arsenal de armas de destruição em massa. Armas nucleares em mãos da al-Qaeda sunita e dos aiatolás xiitas iranianos podem apresentar um cenário de pesadelo nesta década que se inicia. Ambos os lados estariam dispostos a usá-las; e o Talibã já patrocina ataques terroristas no Irã.

Isso dito, há mudanças mais duradoras no âmbito geopolítico. Vistos pela perspectiva Histórica, tanto Osama como W. podem vir a ser vistos como figuras pouco relevantes numa era de tumultuosa ruptura. O grande enfrentamento do futuro provavelmente será mais entre Estados que entre ideologias como na Guerra Fria; as principais tensões virão do embate entre a tendência de cooperação e a de competição, entre a lei e a anarquia e entre a ordem e a desordem.

A ascensão da Ásia é um mapa para a direção e a tendência das relações geopolíticas. No final do século passado ainda se vislumbrava que a hegemonia americana pudesse durar indefinidamente. Mas, a transferência de poder do Ocidente para a Ásia tornou-se um fato desconcertante. A velocidade vertiginosa da ascensão da China pegou muitos de surpresa. Este “Grande Salto à Frente” é muito diferente ao de Mao dos anos 1958-1961 que tentou transformar a China de um país de camponeses em país comunista industrializado e deixou como saldo 35 milhões de mortes em seu rastro. O atual salto proporcionou a decolagem da China e o enriquecimento da população, inclusive a rural.

Não se trata apenas da China. O outro gigante asiático, a Índia, quer fazer sua presença ser sentida no palco internacional, apesar da maioria de seus líderes ainda aderirem ao conceito de país de poder médio. Depois de mais de um século como “país do futuro”, o Brasil pode estar à beira de chegar a seu destino: uma potência do presente. O Brasil parece melhor à medida que seus vizinhos ao sul e ao norte ficam estacionados no passado autoritário e de decisões econômicas heterodoxas. É importante conter tendências semelhantes no Brasil e não cair na tentação de apoiar Estados bandidos. África do Sul, México, Indonésia e o Irã no contexto perturbador de suas ambições nucleares, começaram a exigir reconhecimento e participação em fóruns internacionais.

A crise da bolha financeira provou que o mundo cresceu além das instituições multilaterais do século XX. De forma sagaz, a abundância de crédito barato transformou a prosperidade em estouro da bolha. É óbvia a determinação da Ásia e de outros de se livrarem do Consenso de Washington imposto pelo Ocidente. As potências estabelecidas ainda se reúnem no G-8, mas esses encontros foram ofuscados pelos do G-20 mais inclusivo. A União Europeia está à beira da irrelevância geopolítica; alguém se lembra do nome do novo “Presidente” da UE indicado em novembro 2009?

Fala-se agora no G-2 (EUA-China). Autoridades chinesas parecem bem menos seguras que os admiradores Ocidentais sobre os prospectos de seu país. A deferência demonstrada a Obama durante sua visita a Beijim é uma indicação da medida de como as relações se aprofundaram. Os chineses aceitaram na COP-15 de Copenhague uma governança internacional pata assuntos ambientais. No passado, as fronteiras entre as superpotências estavam no Oceano Atlântico. Agora, elas passaram a ser demarcadas pelo Oceano Pacífico e o principal fórum entre elas é a APEC, Associação de Cooperação do Pacífico.

Seria precipitado, contudo, imaginar que a transferência de poder a leste é precursora de conflito inevitável entre o Ocidente e o resto do mundo (The West and the rest). Pelo contrário, as rivalidades futuras devem ser entre as potências estabelecidas e as emergentes. Elas estão latentes no âmbito dos BRIC.

Houve transformações em países emergentes. O crescimento econômico da China, da Índia e do Brasil, entre outros, tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza e rápidos avanços tecnológicos permitiram que populações rurais se comunicassem e ficassem online. Foi proporcionada, como ressaltou Zbigniew Brzezinski, assessor de segurança nacional de Jimmy Carter, uma conscientização política global. Autocratas, inclusive os chineses, verão as conseqüências da televisão por satélite e da Internet que podem obrigá-los a caminhar para a adoção de um regime menos autoritário. Esta conscientização pode ser bastante desestabilizadora. Não é coincidência que autoridades da China às do Irã e da Venezuela tentem controlar as informações (além das da Rússia, da Argentina, do Equador ou da Nicarágua).

A Ásia se parece desconfortavelmente com a Europa do século XIX; é uma região que ainda não escapou do rancor persistente do passado e ainda não acertou suas disputas étnicas e fronteiriças. Possivelmente, o mundo tenha se livrado do enfrentamento entre grandes potências que marcou os séculos XIX e XX. Apesar das instabilidades que pairam sobre o mundo, vive-se numa época relativamente pacífica; desde 1945, menos pessoas morreram em conflitos entre Estados. No entanto, é mais fácil imaginar um conflito armado entre a China e a Índia, ou entre a China e a Rússia, por exemplo, que um conflito que envolva os Estados Unidos. Uma guerra entre os RIC não pode totalmente ser descartada. (O Brasil está fora dessa!) As democracias não iniciam guerras; elas as fazem depois de serem atacadas.

O Presidente Obama é bastante criticado por não conseguir resolver problemas herdados como o programa nuclear iraniano, o conflito árabe-israelense ou o expansionismo russo. Na verdade, esses problemas não podem ser resolvidos. Na melhor das hipóteses, eles podem ser contidos.

Obama, porém, parece ter entendido a verdade essencial do mundo multipolar de interdependência. Para os Estados Unidos permanecerem o garantidor da segurança nacional – e não há alternativa a isso – o poder americano precisa emergir de e ser legitimado por coalizões multilaterais. Reconhecendo os limites do poder americano, Obama pode ser bem sucedido em mantê-lo.

A escolha agora é entre, de um lado, o mundo multipolar que emerge em que as potências são contidas pelo multilateralismo cooperativo, e, de outro, um mundo rachado por conflitos proporcionados por um nacionalismo exacerbado e estreito. A década passada já proporcionou mudanças profundas; o contorno da próxima dependerá de as grandes potências –estabelecidas como emergentes – serem mestres e não vítimas da ordem global.

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