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Domingo, 5 de setembro de 2010
  Coluna do Cattoni
Primeiro Teste da Nova Bipolaridade
(Numa guerra comercial entre o Ocidente e a China, todos só teriam a perder... , 2010-01-21)

A nova bipolaridade entre Washington e Beijim terá muitos testes. A antiga entre americanos e soviéticos teve seus desafios. No final das contas, cada lado quer manter e expandir seus interesses. Mas a bipolaridade do passado representava um risco maior pela possessão de armas estratégicas com potencial de aniquilar a existência humana no planeta. A atual não chegou a este ponto, embora seja impossível saber como as coisas vão evoluir no longo prazo.

Este teste atual é representado pelo embate entre Google e o governo chinês. Ele é, no entanto muito mais que o destino de uma única empresa poderosa. A decisão de Google de abandonar o país a menos que o governo mude sua política de censura pode ser o arauto de relações crescentemente complicadas entre os Estados Unidos e a China. Este caso da Google é tão significativo porque ele sugere que as crenças nas quais estava baseada a política americana para a China desde o massacre de Tiananmen de 1989 estavam fundamentalmente equivocadas. Os Estados Unidos aceitaram, e até encorajaram, a emergência da China como potência econômica porque os americanos se convenceram que a abertura econômica levaria necessariamente à abertura política, que a Perestróica chinesa levaria à Glasnost chinesa.

Se este pressuposto mudar, a política dos Estados Unidos pode mudar também. Apoiar a emergência de um gigante econômico asiático que se torne defensor, ao longo do tempo, da democracia liberal é uma coisa. Patrocinar a ascensão de um Estado leninista de partido único, rival potencial e plausível da América é algo bem diferente. Se a isso foi acrescentado o desemprego americano de dois dígitos, cuja principal razão é vista por muitos pela manipulação da moeda e mantê-la artificialmente desvalorizada, a reação anti-China nos Estados Unidos pode ser vir a se tornar virulenta.

Tanto Bill Clinton como George W. Bush firmemente pensavam que livre comercio e, em particular, a era da informação tornariam uma mudança política na China simplesmente irresistível e inevitável. Clinton chegou a declarar em visita à China em 1998 que, quando o “sucesso econômico é construído com idéias, a liberdade pessoal é essencial à grandeza de uma nação”. Um ano mais tarde, Bush disse algo semelhante: “Liberdade econômica cria o costume de liberdade. O costume de liberdade cria a expectativa de democracia”.

Esses dois presidentes estavam repetindo a sabedoria convencional da maior parte dos influentes formadores de opinião americanos. Por exemplo, Thomas Friedman, colunista do New York Times, escreveu em seu livro “O Mundo É Plano”, que “a China terá liberdade de imprensa devido à globalização”. Outro pensador muito apreciado por Bill Clinton, Robert Wright, afirmou que se a China bloqueasse a Internet o “preço seria um triste fracasso econômico”.

Não é a primeira vez que isso acontece de os fatos não se conformarem à teoria. A China continua reprimindo a mídia, a velha e a nova, mas isso não a condenou ao “fracasso econômico”. Pelo contrário. A China é agora a segunda maior economia global – ultrapassou o Japão – e o maior exportador do mundo – ultrapassou a Alemanha. Ela tem reservas internacionais de mais de US$2 trilhões que crescem constantemente. Todo este sucesso econômico não foi acompanhado por mudanças políticas, como antecipado por Clinton e Bush, ou Friedman e Wright. O governo chinês parece mesmo se tornar mais repressivo a cada dia. Um dissidente chinês Liu Xiaobo acaba de ser condenado a 11 anos de prisão por seu envolvimento com o movimento Carta 08 que prega reformas democráticas.

A decisão de Google de enfrentar o governo chinês pode ser sinal que alguns americanos possam estar perdendo a paciência com o autoritarismo chinês. Mas a maior pressão deve vir de políticos e não de empresários, que, em geral, temem perder o incrível mercado da China. Apesar da Google, o setor privado americano deve permanecer um lobby em defesa de maior engajamento com a China. A Google é uma empresa pouco convencional de uma indústria atipicamente politizada. Se a Google sair mesmo da China, ela não deve ser seguida por um estouro de boiada de outras empresas globais.

As pressões por uma reavaliação devem vir de sindicatos, de especialistas em segurança e de políticos, em particular do Congresso. A administração Barack Obama até agora manteve os fundamentos da abordagem americana há mais de uma geração. O discurso de Obama durante sua recente viagem à Ásia era uma reafirmação do clássico engajamento americano com a China, com as declarações ritualísticas de que os Estados Unidos apóiam a ascensão da China. Mas, depois de ser censurado pela televisão chinesa e assediado por autoridades chinesas de terceiro escalão na recente conferência de Copenhague sobre o clima, Obama pode se tornar menos leniente em relação a Beijim. Aguardar qualquer sinal da Casa Branca de endurecimento de sua atitude nesses próximos meses com alguma possível declaração de que a “China manipula sua moeda”.

Mesmo se a administração não agir, vozes exigindo um endurecimento com a China devem ficar mais evidentes no Congresso. A decisão da Google ressalta o perigo de ataques cibernéticos pela China, o que pode alarmar os especialistas em segurança. Há também o desenvolvimento de um sistema de escudo antimíssil que pode ameaçar a dominação naval americana no Oceano Pacífico. Além disso, vendas de armas a Taiwan já causam mal estar na relação bilateral entre Washington e Beijim, como sempre causaram no passado. Ademais, o protecionismo parece estar se tornando intelectualmente respeitável nos Estados Unidos, o que preocupa a China.

Numa guerra comercial entre o Ocidente e a China, todos só teriam a perder; poderia piorar a retomada econômica e injetar mais tensões nas relações internacionais. Todos teriam culpa se isso acontecesse. Mas, o fato permanece que os americanos foram deliberadamente ingênuos em defender que comercio e liberdade econômica estão relacionados à democracia. Os chineses são propositadamente provocativos sobre direitos humanos e com sua moeda desvalorizada.

Até Thomas Friedman deu a mão à palmatória. Ele vê um confronto entre o Partido Comunista Chinês, que quer manter seu controle sobre a sociedade chinesa (e censurar Google), e os empresários e empreendedores principalmente de Xangai e Hong Kong que são os mais beneficiados pela globalização. Friedman continua achando que no longo prazo o PCC será o perdedor. Não se sabe ainda se ele está certo. Mas, o que é certo é que há muita indefinição interna na China, que pode levar à futura desestabilização do país, e consequentemente da região e do mundo.

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