Crise Financeira Global 2.0
(A crise melhorou; ela, porém, ainda não acabou , 2010-01-27)
Vários países enfrentam sérios problemas econômicos e se viram obrigados a pedir ajuda de socorro financeiro emergencial a credores externos, como a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional. A medida aliviou os investidores e acalmou as preocupações com uma crise generalizada de balança de pagamentos.
A Irlanda tem um déficit de 12,5% do PIB e uma dívida de 82% do PIB, mas os PIGS, Portugal, Itália, Grécia e Espanha, na sigla em inglês, estão em situação mais delicada. A situação da Grécia questiona a credibilidade do euro e dos arranjos institucionais da União Europeia. É o país que mais preocupa no momento; ela tem um déficit de 12,7% do PIB e uma dívida de 125% de seu produto interno bruto; a Itália, uma dívida de 116% e Portugal de 84,6% de seus PIB respectivos. O Tratado de Maastricht impôs um déficit máximo de 3% do PIB e uma dívida de 60%. Todos eles, portanto, não cumprem o tratado que criou a União de Europeia em 1992. (O Brasil, apesar do aumento da dívida de 47,6% do PIB, está em situação bem mais confortável.)
Além desses países acima, outros membros recentes da UE, como Islândia, Látvia e Romênia, enfrentam sérios problemas. A Ucrânia é outro país nesta categoria. Essas economias ainda não resolveram todos seus desafios políticos que podem atrasar uma resolução para a adoção de programas de contenção da crise.
Apesar de a Islândia ter se comprometido com as condições do empréstimo oficial do Fundo Monetário Internacional, os próximos desembolsos do FMI e de empréstimos de Países Escandinavos enfrentam o risco de não ser concretizados depois do veto do presidente islandês ao projeto de lei da privatização do Banco Icesave. Esta lei teria emendado os termos de reembolso dos €3,8 bilhões ao Reino Unido e aos Países Baixos como compensação ao calote sofrido pelos 300 mil investidores do Icesave, a filial online do Banco Landesbanki. O Parlamento da Islândia adotou a lei em dezembro 2009, mas o presidente, sob forte pressão popular, a vetou em janeiro 2010. Um quarto da população do país assinou uma petição contra o projeto de lei. A conseqüência imediata foi um rebaixamento da avaliação da dívida soberana da Islândia pela Fitch a nível de junk bonds e pela Standard & Poors que a colocou no Creditwatch, o que trás implicações negativas para a avaliação da Islândia. A Islândia quebrou com a crise financeira global.
Na Látvia, a Suprema Corte julgou que o governo violou a Constituição do país quando cortou as pensões como parte das medidas de austeridade impostas pelo acordo que permitiu um empréstimo conjunto de US$10,5 bilhões da UE/FMI, dos quais US$2,35 bilhões são provenientes do Fundo. O Gabinete tem agora que achar o dinheiro para pagar aos pensionistas, o que provavelmente exacerbará as divisões dentro da coalizão de governo antes da eleição parlamentar de outubro 2010 e poderá colocar em risco o socorro do FMI. Os demais países bálticos, Lituânia e Estônia, não estão em posição mais confortável. A Lituânia tem um déficit fiscal de 9,8% do PIB e enfrentou sérios problemas políticos quando tentou adotar medidas de austeridade.
O programa de empréstimo à Romênia de US$26,4 bilhões da UE/FMI, dos quais US$17,1 bilhões vêm do FMI, parece ter voltado aos eixos depois da volatilidade política do final de 2009. Seria prematuro, porém, pensar que tudo esteja resolvido. As recentes eleições estão no passado, a situação política acalmou-se e o programa do FMI parece ter sobrevivido às incertezas eleitorais. Mas, mesmo assim, ainda há riscos políticos. O governo tem uma frágil maioria no Parlamento e a coalizão governante é composta por grupos vários partidos independentes, o que torna o apoio deles pouco confiável. Em outras palavras, se no curto prazo, o pior parece ter passado, nada indica que a situação não vá mudar no médio prazo. O empréstimo deve ser desembolsado em várias parcelas trimestrais até março 2011, e qualquer instabilidade pode atrasar, ou mesmo interromper, futuros desembolsos.
Na Ucrânia, país que não membro da União Europeia, o FMI sinalizou que o programa seria reiniciado depois que as tensões eleitorais baixassem. O primeiro turno foi inconclusivo e haverá uma rodada final. Mas o resultado da eleição pode não trazer a clareza política desejada. Um dos candidatos, a Primeira Ministra Yulia Tymoshenko acusou seu rival pró-russo, Victor Yanukovych, de planejar uma maciça fraude eleitoral antes da eleição. Consenso sobre uma necessária consolidação fiscal parece distante. Ademais, o novo presidente poderia dissolver o Parlamento e convocar novas eleições, o que atrasaria futuros desembolsos. Em suma, 2010 poderia ser tão instável, e com a mesma falta de recursos, que 2009.
Do outro lado do Atlântico, o Presidente Barack Obama decretou guerra aos bancos, o que causou uma queda de 4% nos mercados na semana passada e anulou todos os ganhos de 2010. Os mercados permanecem incertos e receosos. O Presidente Obama defendeu um limite para o tamanho dos bancos como também para a variedade de suas atividades. Isso para conter o estrago que a quebra de uma instituição pudesse fazer a outros bancos e prejudicar a concorrência. Obama tenta assim dar um novo começo às reforma regulatórias. Mas o que causou tanta rejeição em Wall Street e porque tanta surpresa? Banqueiros vivem de fazer lucro encima de risco e viram na proposta de Obama uma tentativa de impor controles ao mercado financeiro e uma ameaça a seus lucros futuros.
A premissa anterior da Casa Branca para a abordagem da reforma era que bancos gigantes tornaram-se um imutável fato da vida e que a melhor maneira de contê-los era garantir que uma quebra eventual não contagiaria o sistema financeiro como um todo. Assim, a primeira resposta adotada “foi garantir que o mercado permanecesse seguro para os bancos gigantes”. Esta resposta acabou sendo altamente insatisfatória. Ela não apenas ignorou a História, mas sugeriu uma dedicação ao status quo. Isso tornou uma verdadeira reforma improvável. Esta reação ignorou também o fato que esses mega-complexos bancários enfrentavam problemas antes de quebrar. Um setor bancário grande demais desvia recursos de outras funções mais produtivas.
As recentes propostas de Obama de cunho populista depois da derrota eleitoral em Massachusetts começariam a corrigir esses problemas. Elas impediriam bancos que gozaram de seguro de depósitos com fundos governamentais de fazerem apostas arriscadas nos mercados de capital, como investir em futuros, derivativos, em empréstimos subprime e em fundos de private equity.
Essas novas regras afetariam gigantes como JPMorgan Chase, Bank of America e Citibank. Outros, como o Goldman Sachs e o Morgan Stanley, seriam incluídos também porque foram convertidos em holdings bancárias durante a crise para assim poder receber ajuda da Reserva Federal. Elas tirariam, nas palavras do New York Times, o “elemento de cassino do sistema bancário do qual todos dependem”. Isso reafirmaria o princípio – perdido durante o socorro financeiro – que o governo não apóia a maneira de Wall Street de fazer negócios.
Há várias formas de controlar o tamanho de e o risco assumido por bancos: maiores reservas de capital, regulação dos derivativos, criação de uma autoridade para obrigar acionistas, credores e a indústria financeira a assumir os custos das quebras evitando a injeção de dinheiro público. Apesar dos US862 bilhões colocados na economia americana, segundo a mais recente estimativa do Escritório de Orçamento do Congresso, há ampla evidência de estagnação de salários, do desaparecimento de poupança para aposentadorias e de bônus exorbitantes pagos com dinheiro do contribuinte. Isso sem falar do aumento do déficit fiscal, da dívida pública, do desemprego, da inadimplência de hipotecas, das execuções de moradias e da fragilidade do mercado imobiliário.
A crise melhorou; ela, porém, ainda não acabou; ela terá de ser paga no futuro. As crises escalaram nos últimos dois anos; ela começou com subprime, evoluiu para o setor financeiro e, em seguida, para a economia mais ampla. O mundo, porém, não parece querer enfrentar os problemas que deram origem à essas crises. Um regulador global que possa limitar os riscos de bancos parece longínquo; mas sua necessidade parece tão grande quanto à dificuldade para criá-lo. Os países parecem preferir improvisação à coordenação global, e enfrentar os problemas de forma individual e isolada.
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