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Domingo, 5 de setembro de 2010
  Coluna do Cattoni
Aposta contra o Euro
(Há sérios desafios à governança da União Europeia... , 2010-02-10)

Gasto público e política fiscal descontrolados não são apenas características da América do Sul, como ficou patente nessas últimas semanas com os casos de Grécia, Portugal e Espanha. A dívida pública está disparando e projeções para as próximas décadas, levando em conta o envelhecimento da população, não são animadoras. Essa ligação intrínseca entre política fiscal, aposentadoria e seguridade social fica evidente. Cortes em gastos públicos representam uma ameaça maior na Europa continental, aonde o setor público permanece grande, que nos Estados Unidos ou no Reino Unido, países aonde o setor privado é dominante. Políticas que foram fundamentais para evitar uma depressão – subsídios ao mercado trabalho e um sistema de seguridade social generoso – podem ficar caras demais no futuro.

. Sem uma única autoridade política, a estabilidade da UE e o pacto de crescimento – elaborados em tempos mais calmos – permanecem referência para as políticas fiscais. Mas, sua credibilidade ficou questionada. Um estudo do Danske Bank da Dinamarca concluiu que não seria realista esperar que países da zona euro trouxessem suas dívidas nesta próxima década para abaixo de 60% do PIB, como determina a UME, união monetária e econômica que criou o euro. Uma dívida abaixo de 100% do PIB pode ser impossível para muitos.

Países europeus individuais apresentam sérios problemas. A Grécia se comprometeu com certa frugalidade fiscal, mas não escapou do risco do risco infame de um socorro provável da União Europeia. O governo irlandês tem um futuro incerto à medida que tenta cortar salários, a desvalorização não sendo uma opção atual na UE. (Mais sobre este ponto abaixo.) O déficit espanhol explodiu e a dívida pública italiana tem aproximadamente o mesmo tamanho em relação ao PIB que a grega.

O desemprego subiu menos vertiginosamente que nos Estados Unidos, graças a medidas governamentais, mas o ponto de partida era mais alto. Prospectos de desemprego, especialmente para os jovens, aumentarão as tensões sociais e inibirão o crescimento. As reformas estruturais propostas pelo BCE e por Bruxelas enfrentam muita resistência. No final das contas, leis trabalhistas rígidas ajudam a explicar por que a zona euro saiu da recessão antes dos EUA e do RU.

O BCE tem de implementar uma “estratégia de saída” da recessão terminando com as medidas de emergência num ritmo que incentive os bancos a fortalecer suas finanças, sem criar novas ameaças sistêmicas. Algumas autoridades do BCE se preocupam com os riscos inflacionários que podem ser criados no longo prazo. Mas outras alertam sobre uma economia enfraquecida com uma inflação persistentemente a quem da definição do BCE de “estabilidade de preços”, abaixo, mas perto de 2% ao ano. Nenhuma dessas opções é boa.

Há indicações que o mercado futuro esteja apostando no enfraquecimento do euro, em parte devido aos fatos descritos acima. Houve um grande aumento na Bolsa Mercantil de Chicago de posições contra o euro desde 2 de fevereiro. As posições vendidas representam mais de 40 mil contratos equivalentes a US$7,6 bilhões e sugerem que há perda de confiança na capacidade da moeda única de resistir ao contágio dos problemas do orçamento grego a outros países europeus. Três grandes bancos, JP Morgan, Goldman Sachs e Deutsche Bank controlam o Mercado de CDS da Grécia e estão envolvidos em operações no mercado futuro.

Numa tentativa de tranqüilizar os mercados, autoridades espanholas se deslocaram até Londres para conversar com banqueiros. Como no caso de países latino-americanos, elas se queixam da imprensa e de descriminação. Mas, a tentativa de agradar o mercado pode ter saído pela culatra. Quando foi revelado que o Tesouro da Espanha estava cogitando levantar €76,8 bilhões com lançamento de bônus neste ano, a reação foi de preocupação. A soma é menor que os €116,7 bilhões levantados em 2009, mas bem maior que se esperava. Os rendimentos dos bônus do governo espanhol aumentaram um ponto percentual acima dos bônus da Alemanha.

O euro caiu para um nível de US$1,35, o mais baixo em oito meses. Analistas dizem que o sentimento em relação ao euro piorou devido à preocupação crescente com os problemas fiscais gregos. Por trás dessa preocupação com a Grécia está a questão não resolvida de como será mantida a disciplina fiscal da moeda única da União Européia.

A consultoria de Nouriel Roubini divulgou uma proposta heterodoxa para enfrentar o fato de o euro não poder ser desvalorizado para enfrentar tais problemas fiscais. A proposta do Europe Economonitor fala de desvalorização em última instância do euro para certos países do sul da Europa. No caso, o medo é que a União Européia pague pelos descontroles dos PIIGS – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha. O plano envolveria “implementação temporária de duas moedas para a União Monetária e Econômica, ambas sob a responsabilidade do Banco Central Europeu em Frankfurt. O núcleo da UE – Alemanha, França e Países Baixos, essencialmente – continuariam usando o euro forte. Já os países da periferia adotariam por um período determinado outra moeda, o euro fraco. O elemento crucial da proposta é que os bônus do governo e a dívida externa dos países periféricos manteriam os termos do euro forte. A transição do euro fraco para o forte dependeria de critérios claramente definidos em relação à conta corrente, em vez da posição fiscal dos países, que é um melhor indicador de competitividade de longo prazo.

Esse mecanismo de câmbio duplo já foi tentado com resultados pouco animadores, mais recentemente na Venezuela. O próprio Brasil tem várias taxas de câmbio: cabo, financeiro, turismo e paralelo. São medidas anacrônicas. Hoje o Brasil tem reservas altas e é “credor do FMI”, nas palavras do Presidente Lula. Por que manter medidas adotadas na época de dívida externa que o PT não queria pagar? Por que não liberalizar o câmbio uma vez por todas? Evasão de divisas não é mais um problema; influxo em demasia, sim.

Na Europa, os alemães parecem dispostos a injetar dinheiro na Grécia para evitar o calote e construir um “firewall” contra contágio. Os trabalhadores gregos, porém, começaram a protestar nas ruas contra os cortes. Devido ao euro, a Grécia gastou demais, viveu acima de sua capacidade, num processo não diferente ao da Argentina na época da Convertibilidad, quando o peso valia US$1,00. O problema é que a Grécia não é a Alemanha como a Argentina não é a América.

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