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Domingo, 5 de setembro de 2010
  Coluna do Cattoni
Falklands/Malvinas 2.0
(A Argentina continua em seu espiral para baixo... , 2010-02-24)

Um país em crise econômica e política e que a cada dia enfrenta problemas mais desafiadores, não deveria criar qualquer crise externa, a não ser que seja para desviar as atenções da população dos sérios problemas enfrentados pelo governo. Foi exatamente isso que fez a Argentina quando ainda estava vivendo sob uma ditadura militar que ia ficando mais desacreditada e criticada interna e externamente. O General Leopoldo Galtieri resolveu invadir a 28 anos atrás o arquipélago das Ilhas Falklands/Malvinas que fica a aproximadamente 300 centenas de milhas náuticas do território argentino.

O conflito de 1982 levou à morte aproximadamente 600 argentinos e 300 britânicos. Foi uma derrota militar humilhante para uma ditadura dos generais argentinos, que sabiam apenas reprimir seus próprios concidadãos e não guerrear um inimigo externo. Levou também Galtieri à prisão, ao fim da ditadura e a Margareth Thatcher ser vista como verdadeira heroína. Para esta, sim, houve dividendos políticos, visto que vinha sendo criticada por suas políticas econômicas. Os mesmos argentinos que deram apoio a Galtieri antes do conflito pediram sua cabeça depois da derrota. Será este o destino de Cristina Fernandez de Kirchner visto a falta de prestígio do atual governo?

O Casal K, composto pela atual presidente e seu marido ex-presidente, enfrenta eleições no ano que vem com perspectivas sombrias. No âmbito político, há sérias alegações de corrupção contra o casal cujo patrimônio adquirido nesses últimos anos parece ser incompatível com os cargos que exercem ou exerceram, ela presidente, ele senador, respectivamente. Aliados começam a abandonar o barco pressentindo que a situação fica mais crítica a cada dia que passa. A oposição fragmentada ganha força, lenta, mas seguramente. O paradoxo argentino é que a oposição é feita por outros setores do Partido Peronista.

O governo luta contra o setor produtivo e agrícola sobre a política tributária. A economia vive uma aceleração da inflação e a Casa Rosada publica números pouco confiáveis. O governo garante que a inflação está em 7,7%, mas ninguém acredita. A maioria dos analistas pensa que está pelo menos duas vezes maior – o preço da carne subiu 40% nessas últimas semanas e o de verduras 20%.

A crise com o Banco Central foi “resolvida” com a exoneração de seu diretor porque este não queria pagar dívidas com as reservas, suspeitando que o dinheiro do Tesouro assim economizado fosse utilizado para uma política populista de gastos públicos expansionistas e irresponsáveis. A demissão por si só já fora inconstitucional visto que apenas o Congresso tem esta prerrogativa.

A situação fiscal argentina parece precária e nada promissora. Em 2009, os gastos governamentais aumentaram 30% em relação a 2008. Nada indica que esta tendência esteja mudando. O novo diretor do Banco Central da República Argentina deve seguir as orientações do governo e endossar a política fiscal da Presidente. Espera-se uma inflação de 30% a 40% para este ano.

A explicação pela explosão da política fiscal é que houve eleições para o Congresso no ano passado e que haverá eleições presidenciais no ano que vem. O governo, porém, perdeu o controle do Congresso nas eleições do ano passado. Cristina pode se candidatar à reeleição, e o maridão Néstor, também, embora as pesquisas não sejam nada animadoras para o Casal K. O que seria um empecilho suplementar para eles, seria a deterioração da economia e, conseqüentemente, do cenário político.

A política tributária para o setor agrícola (o aumento de impostos de exportação) e a retomada econômica ajudaram a arrecadação e a receita do governo bateu recordes em janeiro. Mas, os gastos cresceram duas vezes mais que a receita; o governo ainda precisa achar US$7 bilhões para o pagamento da dívida externa neste ano. Daí, a tentativa frustrada da Presidente usar as reservas para pagar esta dívida. Devido ao calote de 2002, a Argentina pôde tomar empréstimos apenas com a Venezuela, mas a juros exorbitantes.

A Argentina continua em seu espiral para baixo. Em termos de crescimento de PIB e de PIB per capita, a comparação com os vizinhos não é nada favorável. A Argentina começou o século XX com um dos mais ricos países do mundo. No final daquele século, tinha se tornado um pária financeiro internacional com significativo aumento da pobreza. A crise de dezembro de 2002, com três presidentes em um único mês, foi emblemática. A Argentina está se tornando irrelevante. Ela sequer foi mencionada no Fórum Econômico Mundial de Davos em janeiro.

Todo esse cenário ajuda a explicar esta nova crise das Falklands/Malvinas que começou com o anúncio de exploração de petróleo e gás no arquipélago por empresas britânicas. O quadro atual em relação ao petróleo e ao gás é totalmente diferente ao de 1982. O Reino Unido não é mais autossuficiente com o esgotamento do campo do Mar do Norte. A Argentina também está em vias de ter que importar combustível.

Não é realista um conflito armado, entretanto. Tudo deve ficar na propaganda e na retórica. Parece que nada aprendeu com a História e assim repete os mesmos erros de forma ridícula. O governo argentino está agindo de forma patética. Depois do fim do Rali Paris-Dakar Cristina foi fotografada numa “quad bike” de salto alto se encontrando com competidores argentinos; num discurso em janeiro, ela afirmou que carne de porco é bom para vida sexual e é melhor que o Viagra.

A Argentina ameaçou tomar “medidas adequadas” para impedir a exploração de petróleo no entorno das ilhas, e está pedindo apoio de outros países latino-americanos na reunião de Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos que aconteceu entre 22 e 24 de fevereiro 2010 em Cancún, no México. É uma pena que outros governos da região dêem respaldo à esta iniciativa desastrada. Hugo Chávez, claro, se intrometeu e prometeu ajudar a Argentina em caso de “ataque britânico” (?). Evo Morales, que acusou o Presidente da Colômbia de ser um “espião” americano, Rafael Correa e Daniel Ortega, bem como Raul Castro, serão também “solidários” com Fernandez de Kirchner. Mas esta “cúpula” em Cancún, embora tenha dado apoio às teses argentinas, será mais lembrada pelo bate boca chulo entre os presidentes da Venezuela e da Colômbia, que trocaram acusações e xingamentos mútuos na reunião reservada de Chefes de Estado.

Marco Aurélio Garcia já deu o apoio do Brasil, mesmo antes de ser solicitado, declarando que em 1982 o Brasil ficou ao lado da Argentina. Não é bem assim. Em 82, o Brasil realmente “emprestou” aviões de patrulha marítima da Embraer à Argentina, mas permitiu também que tropas britânicas fizessem escala em território brasileiro a caminho da zona de conflito. Mas o Itamaraty de 1982 não era o mesmo que o Itamaraty de 2010.

O Brasil aproveitou a Cúpula para criticar as Nações Unidas. Por quê? Era necessário? A política externa brasileira não se esforça a mais de uma década de fazer que o Brasil se torne um membro permanente do Conselho de Segurança? Cadê a coerência?

Esta comunidade, explicitamente sem a participação dos Estados Unidos e do Canadá, parece inócua. Ela vai se tornar um palco para a fanfarronice de Hugo Chávez, que quer levar os demais países do continente para beira de um precipício e gritar “Companheiros Bolivarianos, um passo à frente!”

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